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Desnutrição e Sarcopenia nos Cânceres Gastrointestinais: Por Que Avaliar Além do Peso?

Foto do escritor: Dr. Emerson Matos
Dr. Emerson Matos
23 de set.
7 min de leitura

Os cânceres gastrointestinais podem provocar alterações importantes no estado nutricional e na musculatura. Redução da ingestão alimentar, disfagia, saciedade precoce, náuseas, vômitos, alterações do trânsito intestinal, má absorção, inflamação sistêmica e aumento do catabolismo estão entre os fatores que contribuem para a perda de peso e de tecido muscular.

Além disso, cirurgia, quimioterapia, radioterapia e quimiorradioterapia podem intensificar essa deterioração ao longo do tratamento.

Esse cenário torna a avaliação nutricional especialmente importante. No entanto, há um ponto essencial: observar apenas o peso corporal ou o índice de massa corporal, o IMC, pode não ser suficiente para identificar todos os pacientes em situação de maior vulnerabilidade.

Peso adequado não significa musculatura preservada

Desnutrição e sarcopenia são condições relacionadas, mas não são sinônimos.

A desnutrição envolve critérios relacionados à perda involuntária de peso, baixo IMC ou redução da massa muscular, associados a fatores como redução da ingestão ou assimilação de nutrientes, inflamação e carga da doença.

A sarcopenia, por sua vez, é um distúrbio muscular no qual a redução da força ocupa papel central. A redução da quantidade ou da qualidade do músculo contribui para a confirmação diagnóstica.

Essa diferença é particularmente relevante no contexto oncológico. Um paciente pode apresentar peso ou IMC aparentemente adequados e, ainda assim, ter comprometimento significativo da musculatura.

A perda muscular também pode ocorrer em pessoas com sobrepeso ou obesidade. Portanto, a avaliação exclusiva do peso pode ser insuficiente para caracterizar toda a vulnerabilidade nutricional e funcional do paciente.

Um dos estudos analisados ilustra bem essa situação. Entre pacientes com câncer colorretal classificados como bem nutridos pela Avaliação Subjetiva Global, 31,9% apresentavam baixa massa muscular identificada por tomografia computadorizada.

A principal mensagem é clara: avaliar o estado nutricional e avaliar a musculatura são estratégias complementares.

O que mostram os estudos?

A literatura analisada aponta uma associação recorrente entre desnutrição, comprometimento muscular e piores desfechos clínicos nos cânceres gastrointestinais.

Em um estudo prospectivo multicêntrico com 469 pacientes submetidos à cirurgia por neoplasias gastrointestinais, risco nutricional moderado ou elevado esteve associado à maior ocorrência de complicações.

Outro estudo apresentou números ainda mais expressivos. Foram avaliados 5.709 pacientes submetidos à cirurgia eletiva por câncer gástrico ou colorretal, em 381 hospitais distribuídos por 75 países. A desnutrição grave, definida pelos critérios GLIM, esteve associada a maior mortalidade em 30 dias, mesmo após ajustes para diferentes características dos pacientes e dos serviços hospitalares.

No câncer de esôfago, um estudo multicêntrico com 462 pacientes submetidos à esofagectomia identificou baixa muscularidade em 59,7% da amostra. Essa condição esteve associada a maior frequência de complicações importantes, menor sobrevida global e menor sobrevida livre de doença.

Entretanto, os resultados não são uniformes em toda a literatura. Em outra coorte de pacientes com câncer de esôfago, embora tenha sido observada relação entre disfagia, obstrução esofágica e maior gravidade da desnutrição, não foi identificada associação estatisticamente significativa entre desnutrição definida pelos critérios GLIM e sobrevida em cinco anos.

Essas diferenças demonstram a necessidade de interpretar os resultados considerando fatores como população estudada, estágio da doença, sítio tumoral, tratamento realizado e método utilizado para avaliação nutricional e muscular.

Onde entra a intervenção nutricional?

A intervenção nutricional tem papel importante no cuidado de pacientes com câncer gastrointestinal, mas é necessário interpretar corretamente o que as evidências demonstram.

Nos estudos analisados, os resultados mais consistentes foram observados em desfechos como:

  • Ingestão alimentar

  • Peso corporal

  • Estado nutricional

  • Composição corporal em determinados contextos

  • Qualidade de vida

  • Tolerância ao tratamento

Após cirurgia para câncer gástrico, por exemplo, um ensaio clínico randomizado mostrou que o fornecimento de suplemento nutricional oral associado ao aconselhamento dietético por três meses resultou em menor perda de peso, maior IMC, maior índice de músculo esquelético e menor necessidade de modificações da quimioterapia, em comparação ao aconselhamento dietético isolado.

No câncer colorretal, pacientes em risco nutricional que receberam suplementação oral durante três meses após a cirurgia apresentaram maior preservação do índice de músculo esquelético e menor frequência de modificações da quimioterapia.

Outro ensaio clínico, realizado com pacientes submetidos à quimioterapia pós-operatória, identificou benefícios em indicadores do estado nutricional, tolerância ao tratamento e componentes da qualidade de vida.

Esses resultados são clinicamente relevantes, mas devem ser interpretados com cautela.

A associação entre desnutrição ou comprometimento muscular e pior prognóstico não demonstra, isoladamente, que a correção dessas condições seja capaz de modificar a história natural do câncer.

A inflamação sistêmica, a carga tumoral, as alterações metabólicas e os efeitos do próprio tratamento também participam desse processo. Portanto, embora os benefícios nutricionais e funcionais sejam relevantes, o efeito direto, consistente e uniforme da intervenção nutricional sobre a sobrevida ainda não está estabelecido.

Avaliação nutricional e muscular devem caminhar juntas

Os resultados disponíveis sustentam uma abordagem integrada.

A triagem nutricional permite identificar o risco. A avaliação nutricional ajuda a caracterizar a presença e a gravidade da desnutrição. A avaliação muscular acrescenta informações estruturais e funcionais que podem não ser percebidas apenas pelo peso corporal.

Esses componentes não devem ser considerados redundantes.

A identificação precoce da vulnerabilidade nutricional e muscular pode contribuir para direcionar um cuidado mais individualizado e compatível com as necessidades do paciente.

Na prática clínica, isso pode incluir a combinação de:

  • Triagem de risco nutricional

  • Avaliação de perda ponderal e ingestão alimentar

  • Avaliação do IMC e da composição corporal

  • Investigação de sintomas que limitam a alimentação

  • Medidas de força muscular, como a força de preensão manual

  • Avaliação de massa muscular por métodos disponíveis, incluindo tomografia computadorizada quando indicada e acessível

  • Monitoramento da tolerância ao tratamento e da evolução funcional

O que podemos concluir?

As evidências disponíveis indicam que desnutrição e comprometimento muscular estão associados a maior vulnerabilidade clínica e a piores desfechos em adultos com cânceres gastrointestinais.

Complicações, menor tolerância ao tratamento e redução da sobrevida foram observadas em diferentes populações, embora a magnitude dessas associações varie conforme o sítio tumoral, o estágio da doença e o método de avaliação utilizado.

As intervenções nutricionais demonstraram benefícios mais consistentes sobre ingestão alimentar, peso corporal, estado nutricional, composição corporal em determinados contextos, qualidade de vida e tolerância ao tratamento.

Entretanto, a evidência de um efeito direto e consistente sobre a sobrevida permanece limitada.

Nesse contexto, a integração precoce da triagem nutricional, da avaliação da desnutrição e da avaliação muscular pode contribuir para identificar pacientes com maior vulnerabilidade e direcionar o cuidado individualizado.

Sobre este trabalho

Este artigo foi elaborado a partir do trabalho científico “Desnutrição e Sarcopenia nos Cânceres Gastrointestinais: Impacto Prognóstico e Papel da Intervenção Nutricional Precoce”, desenvolvido para apresentação no V ONCOCLIL 2026.

A revisão considerou estudos envolvendo adultos com cânceres de esôfago, junção gastroesofágica, estômago, intestino delgado, cólon, reto e canal anal.

A busca bibliográfica foi conduzida nas bases PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde, BVS/LILACS, SciELO e Cochrane CENTRAL, considerando publicações entre 1º de janeiro de 2016 e 15 de setembro de 2026.


Autor: Emerson Francisco Matos Câmara

MT.Nutrier | Nutrição, Ciência e Educação em Saúde


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