Menopausa e Colágeno: o que realmente acontece nos primeiros anos após esta fase na mulher?


A menopausa não acontece de forma abrupta. As alterações hormonais começam ainda durante a perimenopausa, período em que as oscilações e a redução progressiva da atividade estrogênica passam a produzir repercussões em diferentes tecidos do organismo. Entre essas mudanças estão alterações na pele, no tecido conjuntivo, na composição corporal e, especialmente, no metabolismo ósseo.
Clinicamente, a menopausa é reconhecida retrospectivamente após 12 meses consecutivos sem menstruação. Entretanto, do ponto de vista fisiológico, muitas das transformações associadas a essa fase começam antes da última menstruação.
Esse entendimento é importante porque direciona a atenção para uma verdadeira janela de prevenção. Não é necessário esperar vários anos após a menopausa para começar a pensar em saúde óssea, massa muscular, alimentação e estilo de vida.
O que o estrogênio tem a ver com o colágeno?
O colágeno é uma das principais proteínas estruturais do organismo. Está presente na pele, nos ossos, tendões, ligamentos, cartilagens e em diferentes componentes da matriz extracelular.
O estrogênio participa de diversos mecanismos relacionados à manutenção desses tecidos. Com a transição menopausal e a progressiva redução da atividade estrogênica, ocorre uma mudança no equilíbrio entre síntese, degradação e remodelação de diferentes componentes estruturais.
Por isso, as repercussões da menopausa não se restringem aos sintomas mais conhecidos, como ondas de calor e alterações menstruais. O sistema musculoesquelético e o tecido conjuntivo também passam por adaptações importantes.
Na pele, por exemplo, podem ocorrer alterações na espessura, elasticidade, hidratação e organização do colágeno. Isso contribui para algumas das mudanças observadas durante o envelhecimento feminino.
Nos ossos, entretanto, essa questão assume uma importância clínica ainda maior.
Existe um período de maior aceleração da remodelação óssea
Um dos aspectos mais interessantes das pesquisas sobre a transição menopausal é mostrar que as alterações ósseas não começam simplesmente muitos anos depois da menopausa.
Dados provenientes de estudos longitudinais, incluindo o Study of Women's Health Across the Nation (SWAN), ajudam a demonstrar que existe um período particularmente importante ao redor da última menstruação.
Em análises de marcadores relacionados à remodelação do colágeno tipo I e do tecido ósseo, as alterações permaneceram relativamente mais estáveis antes dessa janela, mas se aceleraram aproximadamente entre três anos antes e três anos depois da última menstruação.
Nesse intervalo, foi observado aumento expressivo dos marcadores de remodelação óssea.
O CTX, marcador relacionado à reabsorção óssea, apresentou aumento aproximado de 10,3% ao ano, enquanto o PINP, relacionado à formação óssea, aumentou aproximadamente 7,5% ao ano.
Esses números precisam ser interpretados dentro do contexto do estudo, mas ajudam a compreender um fenômeno fisiológico importante: durante a transição menopausal, a atividade de remodelação óssea aumenta e a reabsorção pode superar proporcionalmente a formação.
O resultado, ao longo do tempo, pode ser perda de massa óssea.
Isso ajuda a explicar por que os anos próximos à menopausa constituem um período relevante para estratégias de prevenção da osteopenia e da osteoporose.
Menopausa não significa apenas saúde óssea
A redução estrogênica ocorre simultaneamente a outras mudanças relacionadas ao envelhecimento.
Alterações da composição corporal podem favorecer maior adiposidade, especialmente na região abdominal, enquanto a preservação da massa muscular passa a exigir atenção crescente.
Isso cria uma relação importante entre músculo e osso.
O tecido muscular exerce estímulo mecânico sobre o esqueleto. Por isso, preservar força e massa muscular não é importante apenas para desempenho físico ou estética. É também parte da estratégia de manutenção da funcionalidade, equilíbrio, autonomia e saúde musculoesquelética ao longo do envelhecimento.
É nesse contexto que alimentação adequada e treinamento resistido assumem papel particularmente relevante.
E onde entra a suplementação de colágeno?
Nos últimos anos, os peptídeos de colágeno passaram a ser investigados em diferentes contextos, incluindo pele, articulações e saúde óssea.
É importante diferenciar simplesmente consumir uma proteína contendo colágeno de utilizar peptídeos específicos de colágeno estudados em ensaios clínicos.
Existem pesquisas avaliando esses peptídeos em mulheres na pós-menopausa.
Um ensaio clínico randomizado envolvendo 131 mulheres pós-menopáusicas avaliou a utilização diária de 5 g de peptídeos específicos de colágeno durante 12 meses.
O estudo encontrou resultados favoráveis em parâmetros de densidade mineral óssea, particularmente na coluna lombar e no colo do fêmur, além de alterações em marcadores relacionados à formação e à degradação óssea.
Esses achados são interessantes porque sugerem que determinados peptídeos de colágeno podem exercer papel complementar dentro de uma estratégia direcionada à saúde óssea.
Outras pesquisas realizadas com mulheres pós-menopáusicas com redução da massa óssea também investigaram a associação de peptídeos de colágeno com nutrientes tradicionalmente relacionados ao metabolismo ósseo, como cálcio e vitamina D, encontrando alterações favoráveis em determinados parâmetros de remodelação óssea.
Entretanto, é fundamental interpretar corretamente esses resultados.
Colágeno não deve ser tratado como solução isolada
A existência de resultados positivos em determinados ensaios clínicos não significa que toda mulher na menopausa necessariamente precise utilizar suplementação de colágeno.
Também não significa que o colágeno substitua outras estratégias com evidências consolidadas para manutenção da saúde musculoesquelética.
A avaliação precisa considerar idade, ingestão alimentar, estado nutricional, nível de atividade física, composição corporal, presença de osteopenia ou osteoporose, histórico familiar, exposição solar, ingestão de cálcio, vitamina D, consumo proteico, medicamentos e outros fatores clínicos.
Portanto, a pergunta mais adequada não é simplesmente:
“Mulher na menopausa precisa tomar colágeno?”
A questão deveria ser:
“Dentro da condição clínica e nutricional dessa mulher, existe indicação para utilizar peptídeos específicos de colágeno como estratégia complementar?”
São perguntas bastante diferentes.
Proteína continua sendo fundamental
Outro erro comum é concentrar toda a discussão nutricional da menopausa no colágeno e esquecer a ingestão proteica total.
Com o envelhecimento, preservar massa e função muscular torna-se progressivamente mais importante.
Uma alimentação que forneça quantidade adequada de proteínas, distribuídas ao longo do dia e associadas ao treinamento resistido, constitui uma estratégia central para manutenção da massa muscular.
O colágeno possui características particulares e pode ser estudado para objetivos específicos, mas não deve substituir fontes proteicas de alta qualidade utilizadas para atender às necessidades proteicas globais e favorecer a síntese proteica muscular.
Portanto, suplementar colágeno enquanto a ingestão total de proteínas permanece inadequada seria uma abordagem nutricional incompleta.
Cálcio e vitamina D também precisam ser avaliados
Cálcio e vitamina D permanecem componentes importantes da fisiologia óssea.
Isso também não significa suplementar indiscriminadamente.
A ingestão alimentar, exposição solar, exames laboratoriais quando indicados, idade, condições clínicas e risco individual precisam ser considerados antes de definir qualquer estratégia de suplementação.
Na prática, a saúde óssea resulta da interação entre diversos fatores e não de um único nutriente.
Exercício físico é parte fundamental dessa estratégia
O treinamento resistido merece destaque especial.
O estímulo mecânico proporcionado pelo exercício participa da manutenção da massa muscular, força e função física e também integra as estratégias de preservação da saúde óssea.
Além disso, exercícios adequadamente planejados podem contribuir para equilíbrio, capacidade funcional e redução do risco de quedas, fatores especialmente importantes à medida que a mulher envelhece.
Portanto, discutir menopausa e saúde musculoesquelética sem considerar atividade física deixa uma parte fundamental da estratégia de fora.
Pele e tecido conjuntivo também sofrem modificações
Embora a preocupação clínica com a saúde óssea seja particularmente relevante, as alterações do colágeno também podem ser percebidas na pele.
Durante o envelhecimento e a transição menopausal, podem ocorrer redução da firmeza, elasticidade e hidratação cutânea.
Novamente, isso não depende exclusivamente de um suplemento.
Idade, exposição solar, tabagismo, alimentação, ingestão proteica, fatores genéticos, hidratação, condições metabólicas e outros componentes do estilo de vida também interferem no envelhecimento da pele.
Por isso, qualquer intervenção precisa ser interpretada dentro de um contexto mais amplo.
A perimenopausa pode ser uma importante janela de prevenção
Talvez essa seja uma das mensagens mais relevantes das pesquisas atuais.
Esperar que a mulher esteja vários anos na pós-menopausa para começar a discutir massa muscular, densidade mineral óssea, ingestão proteica e exercício físico significa perder uma oportunidade importante de prevenção.
As alterações fisiológicas começam antes.
A perimenopausa pode, portanto, ser encarada como uma fase estratégica para avaliação do estado nutricional e da composição corporal, adequação da alimentação, incentivo ao treinamento resistido e identificação de fatores de risco relacionados à saúde óssea e metabólica.
A prevenção não começa quando a doença aparece.
Afinal, vale a pena utilizar colágeno na menopausa?
A resposta precisa ser individualizada.
Existem ensaios clínicos sugerindo benefícios de peptídeos específicos de colágeno em determinados parâmetros, principalmente relacionados à saúde óssea, e essa área continua sendo investigada.
Entretanto, a evidência disponível não sustenta transformar a suplementação de colágeno em uma recomendação universal para todas as mulheres na menopausa.
Quando houver indicação, ela deve ser entendida como parte de uma estratégia nutricional mais ampla.
Essa estratégia pode envolver:
alimentação adequada;
ingestão proteica suficiente;
treinamento resistido;
manutenção da massa muscular;
adequação da ingestão de cálcio;
avaliação do estado de vitamina D;
controle da composição corporal;
sono adequado;
redução do sedentarismo;
avaliação individual do risco de osteopenia e osteoporose.
É justamente a combinação desses fatores que torna a abordagem mais consistente.
Conclusão
A menopausa representa muito mais do que o encerramento do ciclo menstrual.
A redução progressiva da atividade estrogênica desencadeia adaptações que envolvem diferentes sistemas do organismo, incluindo pele, tecido conjuntivo, músculos e ossos.
Os anos próximos à última menstruação parecem constituir uma fase particularmente importante para a remodelação óssea, reforçando a necessidade de olhar para prevenção ainda durante a transição menopausal.
Peptídeos específicos de colágeno apresentam resultados científicos interessantes e podem representar uma estratégia nutricional complementar em situações selecionadas.
Mas nenhum suplemento deve ocupar o lugar daquilo que continua sendo fundamental: alimentação adequada, proteína suficiente, exercício físico, preservação da massa muscular e acompanhamento individualizado.
A principal mensagem, portanto, não é simplesmente “tomar colágeno na menopausa”.
É compreender que a transição menopausal representa uma janela importante para cuidar hoje da saúde que queremos preservar nos próximos anos.
MT.Nutrier | Nutrição, Ciência e Educação em Saúde
Nota: conteúdo educativo. A indicação de suplementos e a investigação de osteopenia ou osteoporose devem considerar avaliação individual e os fatores de risco de cada pessoa.
Referências científicas
König D, Oesser S, Scharla S, Zdzieblik D, Gollhofer A. Specific Collagen Peptides Improve Bone Mineral Density and Bone Markers in Postmenopausal Women: A Randomized Controlled Study. Nutrients. 2018;10(1):97. doi:10.3390/nu10010097. PMID: 29337906.
Este é o ensaio randomizado com 131 mulheres pós-menopáusicas, 5 g/dia de peptídeos específicos de colágeno durante 12 meses, que fundamenta uma parte importante do nosso texto.
Anastasilakis AD, et al. Effect of calcium and vitamin D supplementation with and without collagen peptides on bone turnover in postmenopausal women with osteopenia. Journal of Musculoskeletal & Neuronal Interactions. 2020.
Estudo prospectivo randomizado com 51 mulheres pós-menopáusicas com osteopenia, comparando cálcio + vitamina D com ou sem 5 g de peptídeos de colágeno, avaliando P1NP e CTX.
Zdzieblik D, Oesser S, Baumstark MW, Gollhofer A, König D. Specific Bioactive Collagen Peptides in Osteopenia and Osteoporosis: Long-Term Observation in Postmenopausal Women. Journal of Bone Metabolism. 2021.
Seguimento de longo prazo de mulheres pós-menopáusicas com redução da densidade mineral óssea, avaliando o uso continuado de peptídeos bioativos específicos de colágeno.
Greendale GA, et al. Changes in Collagen Type I C-Telopeptide and Procollagen Type I N-Terminal Propeptide During the Menopause Transition. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. 2024. PMID: 38087944.
Este é particularmente importante para nosso artigo: análise longitudinal do SWAN, com 541 mulheres acompanhadas durante a transição menopausal. CTX e PINP permaneceram relativamente estáveis até cerca de três anos antes da última menstruação; entre 3 anos antes e 3 anos depois, aumentaram aproximadamente 10,3% e 7,5% ao ano, respectivamente.


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